domingo, 25 de julho de 2010

Um pouco da melhor banda que o Brasil ja teve!





V, grafado em algarismo romano, era o título do quinto álbum da Legião. O flerte que a banda, e especialmente Renato Russo, sempre teve com as estéticas medievais e do romantismo atingiam o ápice. As três primeiras faixas funcionavam realmente como uma introdução do disco. Primeiro, uma vinheta chamada “Love song” abria o álbum cantada em um português arcaico, com vozes dobradas e cobertas de ecos, remetendo a cantos gregorianos. Depois, a suíte em quatro partes, “Metal contra as nuvens”, na qual Renato se tornava o próprio cavaleiro medieval que enfrentava tempestades e dragões, para terminar esperançoso e redentor. A faixa contou com a participação de mais de 40 músicos e arranjo de cordas de Eduardo Souto Neto. A tal tríade da introdução era encerrada pelo tema instrumental “A Ordem dos Templários”.

A seguir, a lentidão proposital e quase lisérgica de “A montanha mágica” a deixava tão arrastada e densa quanto o livro original de Thomas Mann, da qual pegara o nome emprestado. O papel das drogas num mundo (e numa vida) tão cinza é talhado com precisão pela letra de Renato. Acentua-se o viés político neste disco, que já não é contestador e direto quanto outrora, mas, até por isso, parece ser mais cortante. A faixa seguinte, “O teatro dos vampiros”, é uma das obras que melhor define o auge da era Collor, o descrédito, a apatia e a instabilidade, que ainda viriam a ser chacoalhadas pela geração cara-pintada.

Na parte final, o disco se voltava mais para a tensão nos relacionamentos pessoais. “Vento no litoral” era uma das músicas mais bonitas e tristes que a Legião já fizera e contava com a assinatura forte de Bonfá, que havia criado a centelha original da música. Muitas vezes era o baterista quem criava algumas das músicas mais lentas do grupo e Renato fazia graça disso: “O Bonfá faz essas coisas e quem fica com a fama de melancólico sou eu”. Apesar de não ser o responsável “original” pela tristeza de “Vento no litoral”, o vocalista andava profundamente atormentado pelo abreviamento da própria vida, desde que se descobriu, no fim de 1990, portador do vírus HIV. E a saída para tudo parecia estar na idealização de uma vida mais simples, em gestos menos pretensiosos. A faixa seguinte, “O mundo anda tão complicado”, também discorre sobre isso. Para a turnê, a banda preparou aquele que seria seu melhor e mais completo espetáculo. A situação crônica do país fez Renato incluir uma versão de “Carinhoso” nas apresentações, a qual apresentava como “o hino nacional brasileiro”. Mas a série de shows foi interrompida depois do concerto em Natal. Renato estava muito fragilizado emocionalmente e isso o tornava ainda mais propenso aos abusos de álcool e drogas. O que ele já cantara nas letras de V tomara formas ainda mais reais em sua vida e sua angústia só fazia aumentar. Após os incidentes na turnê, Renato iniciou um novo tratamento de desintoxicação junto a Alcóolicos Anônimos e isso se refletiria em sua vida e obra nos anos seguintes.

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